Domenicali admite que a F1 errou ao seguir a onda da eletrificação e agora defende uma nova estrutura para 2031. Descubra quais são os pontos que a FIA e a categoria precisam considerar para o próximo ciclo.
Três corridas. Só três corridas foram suficientes para a FIA já precisar mexer no regulamento de 2026. Isso diz muito sobre o que deu errado nesse ciclo — e, principalmente, sobre o que precisa mudar no próximo.
Antes de mais nada, é importante ter calma. Os ajustes feitos para o GP de Miami são relativamente pequenos. Nikolas Tombazis, diretor de monopostos da FIA, já havia avisado no ano passado que partes do regulamento ainda seriam um “trabalho em andamento”. Nesse sentido, esses retoques entravam no script desde o início.
Mas isso não livra a categoria de uma análise mais honesta sobre o que aconteceu e o que precisa mudar daqui pra frente.
Os ajustes para Miami resolvem o problema?
Primeiramente, dois pontos estavam no topo da lista antes das reuniões de abril: tornar o quali mais competitivo, reduzindo o limite de recarga elétrica, e melhorar a segurança, reduzindo as velocidades de aproximação nas curvas.
Esses são exatamente os retoques que estão sendo aplicados. Porém, nenhum deles muda o produto de forma fundamental. Ainda vemos corridas com gestão de energia em vez de batalhas brutas na pista. Ainda vemos o DRS substituído pela aerodinâmica ativa, que na prática criou mais problemas do que soluções.
Além disso, qualquer intervenção mais profunda que afetasse o resultado das corridas seria politicamente explosiva. Toto Wolff já pediu “bisturi, não taco de beisebol” — o que faz sentido para a Mercedes, que investiu pesado nessa era e quer colher os frutos agora.
Por que a F1 chegou até aqui?

Pois bem, para entender o presente, é preciso voltar um pouco no tempo. Há cinco anos, a indústria automotiva vivia sob o impacto da narrativa da eletrificação total. Montadoras europeias apostavam pesado em VEs, regulamentações da União Europeia empurravam o fim dos motores a combustão, e a F1 se alinhou a essa tendência para manter fabricantes como Audi e Honda a bordo.
Consequentemente, surgiu o regulamento de 2026: uma unidade de potência 50/50 entre combustão e parte elétrica, aerodinâmica ativa, sem DRS convencional. Uma coisa levou à outra, como descreveu Pierre Waché, da Red Bull: “remendo sobre remendo”.
O próprio Stefano Domenicali reconheceu o erro de percurso em entrevista à Autosport:
“Há cinco anos — parece que foram 50 — os fabricantes achavam que a única maneira de progredir era a divisão 50:50, a tecnologia elétrica ou tentar encontrar o equilíbrio certo entre o motor de combustão e a eletrificação. Esse foi o ponto de partida. É por isso que estamos aqui hoje.”
Ou seja: a F1 dobrou para as montadoras. E isso custou caro em termos de complexidade técnica, custo de desenvolvimento e, principalmente, qualidade do espetáculo.
O cenário mudou — e a F1 precisa se adaptar

Igualmente relevante é o fato de que a realidade da indústria automotiva em 2026 é completamente diferente da de 2021. A União Europeia flexibilizou suas regulamentações. A Ford anunciou que voltou atrás na decisão de abandonar os motores a combustão interna. A narrativa do VE puro perdeu força.
Domenicali reconhece isso diretamente:
“Agora está claro que a eletrificação ganhou espaço em relação à hibridização. E todos entendem que, se houver combustível sustentável em quantidade suficiente e com o preço certo, essa pode ser a maneira realista de nos prepararmos para lidar com a questão das emissões.”
Além disso, outro ponto ficou evidente: fabricante de carro de rua pode mudar de estratégia da noite para o dia. A Renault era parte ativa nas discussões sobre o motor 2026 — e saiu. Isso deixou um vácuo e serviu de lição dura para a categoria.
“Não podemos estar em uma situação em que a crise do mercado possa levar a certas decisões difíceis para o fabricante. Portanto, temos que proteger isso”, disse Domenicali.
O que a FIA e a F1 precisam fazer diferente em 2031

Sendo assim, quais são os pontos concretos que precisam mudar para o próximo ciclo? Com base em tudo que foi discutido, é possível listar o seguinte:
1. A F1 precisa ter sua própria “estrutura” técnica
Domenicali foi direto: a categoria não pode mais ser “encurralada” pelos fabricantes. A FIA e a F1 precisam definir primeiro o DNA do esporte — e depois abrir para refinamento com as montadoras, não o contrário.
2. Combustível sustentável no centro, não a eletrificação pesada
O próximo motor pode ser um V8 movido a combustível sustentável com um componente elétrico menor. Mais simples, mais leve, mais barato, mais ruidoso. Em resumo: mais F1.
3. Decisão precisa acontecer ainda em 2026
Domenicali foi enfático: “Não podemos perder muito tempo. Precisamos decidir o mais rápido possível.” O próximo ciclo está previsto para 2031, mas pode ser antecipado se houver consenso. E para isso, as discussões precisam começar agora — não em 2028.
4. Equilibrar interesses dos fabricantes sem depender deles
Os OEMs europeus continuam sendo vitais. Porém, a F1 aprendeu da pior forma que não dá para colocar todo o futuro do esporte nas mãos de decisões corporativas. É preciso uma espinha dorsal regulatória independente.
5. Ouvir pilotos e fãs puristas
Por fim, o próximo regulamento precisa ser mais alinhado com o que os pilotos pedem e com o que os fãs mais apaixonados pelo esporte querem ver: carros que empurram, que batem de frente, que fazem o piloto fazer a diferença. Não máquinas de gerenciar bateria.
Vale esperar pelo futuro?
Certamente, sim. Domenicali usou as palavras “lição aprendida” mais de uma vez na entrevista. Isso sugere que a F1 está, de fato, disposta a não repetir os mesmos erros.
Portanto, o próximo ciclo — seja em 2031 ou antes — tem tudo para ser mais emocionante, mais simples e mais fiel ao DNA do que a Fórmula 1 sempre foi: velocidade, pilotagem e espetáculo.
Afinal, ninguém assiste à F1 para ver gestão de energia. Assiste para ver batalhas.
E você, o que acha que a FIA deveria priorizar no próximo regulamento? Comenta aí!